Com o passar dos anos vamos criando mecanismos para lidar com o desenhar da vida, por vezes sem percebermos, ou melhor, recorrendo ao conceito de apercepção de Leibniz, que nos diz existir uma consciência reflexiva do estado interior, ao qual chama de apercepção, que acompanha as percepções distintas ou pequenas percepções. Neste sentido, o ato pontual, a apercepção acrescenta-se, então, à percepção. Esta, podemos dizer, é uma permanente atividade expressiva do mundo a partir de um ponto de vista absolutamente individual. Em síntese, percepção consciente. Opa, ai está um precioso segredinho, devemos tornar consciente, pois somente este pode ser mudado ou adaptado.

Talvez você esteja se perguntando, como nos tornarmos conscientes? Não apresento aqui uma receita de bolo, mas podemos fazer algumas perguntas básicas para auxiliar esta investigação, perguntas relacionadas a cinco aspectos da vida que se encontram interligados, a saber: situação, pensamentos, sentimentos (emoções, estados de humor), reações fisiológicas e comportamento. Uma simples alteração em um desses aspectos pode acarretar modificações em todo o conjunto.

Ao percebermos a relação entre pensamentos e sentimentos, por exemplo, nos tornamos mais receptivos para questionarmos a evidência de tais pensamentos e buscarmos substitui-los por outros que julgamos mais adaptativos ou funcionais.

O modelo acima nos remete a nossa integralidade, um conjunto inseparável e idiossincrático, no que tange a um determinado sujeito e de nenhum outro. Quando nos deparamos com uma situação eventual qualquer da nossa história, os pensamentos ativados estão ligados as nossas emoções e se manifestam em comportamentos.

Nos anos dedicados ao setting, venho identificando que a angustia tem origem em uma tentativa por vezes frustrada de tentar equilibrar a vida, seus desdobramentos e escolhas. Mas, como contrabalançar uma “vida” profissional, com uma pessoal e ainda outra individual (nós com nós mesmos), tantas demandas, sem que uma receba maior atenção e importância em detrimento à outra? Como posso encaixar no meu dia a dia, por exemplo, uma melhor alimentação, dedicação aos estudos, atividades físicas e tantas competências mais, sem que deixe para trás algum buraco em aberto?

Será possível separar uma coisa da outra? Quando me aborreço em alguma área da minha “vida” pessoal, acabo levando isto para trabalho, não é mesmo? Ou alguém espera voltar para casa para continuar aborrecido? Poderia dizer que é difícil separar uma coisa da outra (uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa), tendo em vista que, estas são representações de um mesmo sujeito.

Podemos ativar esquemas para tentar lidar melhor em tais situações, mas isso é um tópico para discutirmos em outro momento. Aqui, cabe dizer, que somos afetados pelo nosso ambiente ao mesmo tempo em que o afetamos, somos este mister equilibrista na sansara da vida.

Quando nos sentimos incomodados, buscamos algo que nos dê prazer e assim, equilibre essa balança em nós. Por inúmeras vezes buscamos aquilo que nos dá prazer, não há como negar, mas, estamos tratando daquele prazer efêmero e fugaz, resultante de um alívio imediato, seguido de um longo período de desprazer. A busca pela consciência que me referi, logo no início do texto, perpassa pelo entendimento de que estes prazeres falseados, em nada ajuda na conquista do tão almejado equilíbrio.

Deanne de Freitas